29 de agosto de 2009

A verdadeira história do tuím

__“Bonito, como veio o dia foi.
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__As sombras bem, o sol melhor, ele que ficara das seis matinas às sete noites. Tava na cara que o dia tinha nascido pra deitar colorido. Tinha saído cedo naquele assinzim, desses assinzins que dão vontade na gente de render o dia, tanto é que rendeu, como o sol que estava lá até agora, a essa hora já esticando seus braços, tchau procêis, prometendo mais pra manhã. Deu vontadezinha mesmo é de puxar rede pro rabo, a mulher pro colo e a mão pros seus cabelos, cafuné dizendo arroz docinho no ouvido. Jeitinho nordestino no seu falar e fazer seu tardecido, arrastadim, juntim, delícia de língua, sangue que enxica na subida e que arreia mel caindo...”
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__Que é bom demais ler assim em dia igual assim ao sinzim, é. Dá orgulho de ser alfabetizado. Mas parei. Um causo me puxou pelos zóio. Um casal. E é de paulista, já vi tudo! Puxei o ouvido, distraído do resto. Gosto desses continhos de amor.
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__O caso estava escancarado. Ele quereroso. Ela, fazendo dengo forte, querendo e não querendo, mas brigada acima de tudo. Dizendo pra ele ir embora. Olhei como as mãos se pegavam. Belezura de mão que era a dela! A dele... não fez meu tipo. O meu tipo mesmo, e é o que logo percebi naquele jeito como se carinhavam, é o jeitinho que eles... se carinhavam! E por mais que a menina pise firme, coisa que levaria qualquer rapagão, depois dumas horas, desistir da empresa, me auto questionei: como queria o menino ser cabra numa hora dessa, ali, há dias de hora com sua morena encucada, se ele se derretia, ela idenzão, quando a pele se juntava? Dá não!
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__Aqui cabe um parêntes.
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__Aquela leitura era de artista nordestino. Estava todo concordado num tema que o escritor falou bem falado, que era o jeito que o baiano, o sergipano, ou alagoano se tocava. Como é que a gente pode não amolecer à maneira de quem diz que aquela coisa boa toda que a gente faz a dois é chamego, cheirinho, nhanhar? Pois que me desafie a rapariga, que eu provo agora, na consciência do povo sincero e amoroso, que de tantas bandas por quais o leitor aí já deve ter passado, todas bem mais que as minhas, este leitor há de concordar comigo que, fuque por fuque, lero por lero, pouca, mas muita pouca gente nesse mundão redondo, é de calar a cuca pensadora, arriar a mão tique-taque, e deixar que ela vá à tôa, bonita como veio o dia, bonito como vai ser, isso se se fôr. Bato pé e defendo: a gente só se encontra — ele nela, ela nele, ele com ele mesmo, ela com ela própria, e eles neles em casal, — só se encontra é no chamegar. O resto é enganação do social. A gente amolece todo com uma mão jeitosa, um roçado ligeiro, um abraço encaixado.
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__Fecha parêntes, que precisamos é ajudar o dilema aqui entravado. Que é o do homem xoxo aí parado diante da mulher jeitosa, querendo um beijo dela. Mas e pra convencer a moça de que isso é correto? Coitado do cabra, que, sempre tão palavra, hoje tá endoidão com essa greve de verbo. Diacho! Pois ela não se aquieta com a suada que a mão dá quando pega na dele? Tão macieza precisa de mais júri? Quer falar, botar pra fora, mas como sai truncado e sem jeito! O dono da banquinha já vendeu quinze fofocas desde que o casal empacou seus desejos na calçada da avenida. O jeito, reforço, é o menino pegar na mão da menina. Já fez várias dessa. Ela resiste. Mas também, que deixemos só entre eu e o leitor experiente: ô mulher difícil de papo! Já dizia meu mestre: se no pegar não der tuím, sai de fina. Só o toque é capaz de acender enerjão — e nem é de ação; é energia sentida, combinada mesmo, sem equação, é pegar e ver se deu, ponto, zé fini. Só isso aí acalma o mais arretado dos moços e a mais farofeira das moças. O resto é conversa, com o perdão do jogo de palavra.
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__Mestre sabido. Vem cá, veínho, vem falar pra moça que pode confiar. Porque, a dizer da cara de babão dele, ou da cara de felicidade dela, desses dois não fez só um tuím. Fez TUÃO, que o jornaleiro sentiu forte, e de distância até, e tá de prova que daquele mato sai bicho bonito.
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__Mas deus teja contigo, mestre, e bem longe da cidade.
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__Vamos abrir parágrafo, travessão, ponto e virga e pula página pra dizer o causo que pesa o passo desses dois: ela é prometida! Tava de anel, ele não.
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__Ai, minha santa rita que passa quatro, meu são tomé dos alfabetos, meu jesuis piedoso, meu são joão do grilo! Quem é o suassuna que vai tirar o nó dessa enrascada? Prometida a gosto, diz a bunita que tá indecisa na fronteira. Agora é que o nosso galão vai ter que rebolar no xaveco, que o chamego já foi pros quiabos!
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__Tenho pena é do pobre leitor dessa milonga... Se já tiver pulado pra outras viagens, vou entender sem ranço. Está frio na cena, falei, virei página, e, acredite em mim: a menina não deixou nem o varão roubar uma bituca. Bravou com ele. A cena foi engraçada. Passava uma senhora, dessas fofoqueiras, quando a morena levantou a voz e ordenou com punho de mulher mandona que ele não fizesse isso. “Não faz mais isso, eu não gosto!” A dona andarilha riu-se, dobrou-se pra trás umas cinco vezes pra ver se era caso de novela ou era tarado no pedaço. Mas ainda bem que ela, a mocinha do nosso casal, se agosta nele, que senão tanta lenha queimada aqui seria desperdiçada num não fugidio.
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__Outra cena de dar risada. Parecia filme. A menina, dizendo que aquela vontade era coisa da cabeça dele e que não existia, ouviu do varão, já meio irritado, que negar aquele arrepio do toque era coisa de louco. E pegou no corrimão de uma escada que tinha ali, e disse, “Sai, corrimão, sai daqui, que você é da minha cabeça!” A menina, morena que é, ficou coradinha. Não sabia pra onde olhar. Mas se riu, claro. Menino bobo. Menino convincente no ser bobo! Ela tentava brigar, mas não se queriam brigados. Riam. A seriedade os causava olhos brilhantes. Se entendiam, apesar de uma parte não querer. Mas já demorava...
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__Ela se percebeu desse gostoso estar com ele. Arriou as defesas, baixou a guarda. Sorriu, quereu. Lerou, lerou, veio, foi, veio, foi, mas quanto mais vinha um nariz do outro, menos ia na volta, de forma que de meio em meio dedo uma hora as bocas se tocaram, e, como já imaginava eu, se tocaram ainda na pontinha seca da boca, sem repulsa da pedreira mulher. E depois de novo. E de novo. Sem molhar. Em cima, pelo menos. Ela se fingiu de contrariada. “Me deixa sossegar”, disse ela, vejam bem como eu vi, “Me deixa sossegar” puxando pra seu bucho o bucho do sortudo.
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__Bateu a razão. Diacho! Nessa, a doidinha propôs pro doidão: “Eu te beijo e você nunca mais dirige a palavra à minha pessoa.” Diacho de novo! Que ilusão é essa dela? Que beijo nesse mundão redondo é meta de se contar ponto? Promessa sem jeito é mais essa!
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__O dono da confusão negou, porque diz ele ser de palavra. Pelo menos moral, penso eu, porque hoje tava difícil de dobrar a bichinha; só vinha adjetivo, adjetivo, e nada de verbo!
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__Mas tava lá a prova que o querer era de ambos: ela dobrava! Foi o tempo corrido? Foi o verbo atrasado? A razão maior das coisas dominou a bonita? Eu punhava minhas moedas na casa do gosto mesmo, que paixão assim não se mata com beijo, se acende! Ela embirrou porque o mancebo não topava. Brigou sorrindo, jeito de mulher nhanhosa. Doidinha e doidão...
__
__Uma hora, no silêncio cumplicizado, ofereceu a moça seu pescoço liso. O bicho ficou fogo e logo tascou bitoca. Foi subindo como todo homem aprendeu. No cume da levada, um roçado: beijaram de igualdade aceitada! Sem roubo: foi de acordo, de cessão, de vontade. Ê, lerê beijo bom! Quem se foi, perdeu a cena. O jornaleiro abriu uma cerveja em brinde: que nem torcedor que tem raiva do time que não marca, mas cujo amor faz comemorar o gol como se raçudo fosse o tempo todo. Vai vender fofoca a rodo...
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__O cabra arretado nem teve assinado o contrato do esquecimento, aquele que ela propôs como trato de beijada. Tava brava ou confusa? Mulher que pensa demais, o que mais odeia é não entender as coisas dela própria. Ele, só olhava, nem ligando, roubando, agora sim, um selo de outro, enquanto ela não calava o beiço. Ponho aqui as palavras que os dois trocaram.
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__— Não mais, Mm, me toca. Não mais me, Mm, beija. Não mais, Mm, me abrace. Larga, larga da minha mão! E nem mais me liga. Não mais conversa comigo. Não me beija, não mais me beija!
__— Tudo isso dá?
__— Á-á-á! Não fala! E nem canta! Não escreve. Nem pensa, não! Não me cheira, não passa seu perfume, não se aproxima, não se mostra, não se acha, não pensa em mim, não escreve seu livro, não atravessa a rua, não fica na calçada, não vai de carro, não pega ônibus, não acredita, não sonha, não imagina, não vai ao curso, não vai à feira, não vai ao restaurante, não pega carona, não vai ao metrô, não aparece, não me aparece!
__— Uai!
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__Parou. Adivinha o que aconteceu? Beijaram de novo! Novato como o molecão, ainda não sabe que mulher que nega tudo, quer tudo. Nas entrelinhas desse palavreado torto, o que ela mais queria era dizer: “Não, Mm, me, Mm, obedeça. Mmm!” Só digo uma coisa: nhanhosa! Até eu fiquei com vontade.
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__Mas tadinha, vai sair daquela hora perdidinha da silva souza, sem saber se fica com o novo ou com o véio. O cabra tem carinho e entende essa situação nó cega; mas apesar de ser moleirão, tem vontade, e, além do mais, o que ele pode fazer? Porque se tem uma coisa que deixa um ser humano doido da vida, é ignorar o chamego que combina na gente. Tuím, mestre, tuím. E ela sabe disso: gostou do beijo, gostou de tudo. Ela pedia pra poder ir embora e o moço, que estava de braço solto e sem pegar nela, nada fazia: por que ela simplesmente não ia? Coisa do coração.
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__Uma hora, foram. Ele acompanhou até o ponto e viu a dengosa sumir na muvuca do busão. Ô, cabra, não vai comprar seu fuca? Levava ela, diacho! Mas bão! Ficamos aqui sem saber se vai dar canja ou seca. No final o indivíduo ainda veio pra mim, olhou de cúmplice, entrou na banca mudo, me pagou calado, e eu só de zôio... Era uma revista de escritor, algo assim. Ousei puxar palavra, ele sorriu desconfiado, e partiu. Nada de fofoca.
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__Chamego, xaxado, cheirinho. E nhanhar. Se toque bom adoça até veneno de cobra, imagina quando se gosta um do outro. Palavra que nada! Povo gosta é de tuím.
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25 de junho de 2009

Rímen

De branco, cremosa
Amarela, manga e apetite
Doura loira, ombros da sua pele
Cobre fosco, marca do seu sol
Vermelha, suas rendas a dois

Morena caramelo que eu desembrulho
Na prata, no ouro, no escuro
Sua porta semiaberta convida
Por seus ocultos olhares
__
__

9 de junho de 2009

Futuro do pretérito do subjuntivo

Eu, lendo
Três sites, um fotolog, videolog, cinco clipes no Youtube, três perfis de MySpace, um Facebook, Visitem, um Orkut pessoal, um Orkut profissional, MSN pessoal, MSN profissional, Adicionem, site de seu grupo, Flíquer, Blog de poemas, Blog de bobagens, Leiam, 3 frases em portas de banheiro do Centro Cultural, um muro pixado nos Jardins, uma foto no mural de 98 na escola, Comentem, e agora entro Eu, adiantando:
Sou ocupada.

Eu
Mas cadê seu perfume?...

Eu, adiantando
Tá aqui.

Eu
...O perfume que tornou seu.

Eu, adiantando
Tá aqui comigo.

Eu
E cadê você?

Eu, adiantando
Aqui.

Eu te vi. Todas as outras do elenco dançavam curvadas e mancas, sabidas: a rainha estava ao centro, posuda, liderava a dança, exuberando as pernas, sorrindo como rainha, piscando como rainha, flexível, maleável, um corpo de argila pro meu corpo de escultor, o espetáculo capengava mas ela dominava, controlava o ritmo e controlava o público, ela, a abelha rainha, ela com suas súditas, soldadas invejosas, ela contra todas, ela para todos, ela, a musa da noite branca, ela para todos e para mais ninguém além de meus olhos gulosos.

Você é doce...

Nevascou? Nevou ou eu que te beijava? Ventou ou tu que me aquecias? Choveu ou a gente incendiava? Tempo e trânsito agora: garoa na cidade que flui bem. Garoa? Então tudo relativizou. É que são vinte e poucos anos e vários balões murchados na rasa atmosfera de meus anseios sufocados, quem sabia eu que ia ter de novo a sensação da conquista hiper, do beijo tímido, do tudo que se quer com medo de perder, da vida em mãos, de um brilho molhado nos olhos, nos lábios, o primeiro passo de uma noite no roçar de dedos? Eu te queria há meses e você em seu ex ancorada. Quando bate uma paixão dessas, que se espera, que se ouve nas cochias soluçadas, e de repente se tem em mãos, na boca, nos braços, por mais tolo e pueril que eu seja derretido num sonho – contraposto ao macho alfa, eu sei, mas que posso fazer? – tudo em minha volta congela e eu queimo, eu declaro guerra ao sentido horário, eu declaro resistência ao amor de pacotinho, eu declaro luta frente ao domínio das raízes de areia do dinheiro, eu declaro, eu declaro, eu de-cl-AMO!

Você é tão doce...

Pêgo de surpresa. Nós na cama dada, num
pulado tempo, num trocado momento. Eu, você, nós nus, entrega, paixão, paixão, pra te beijar o corpo todo eu curvei até onde eu jamais havia latejado, e você rainha, mãos de musa que não toca, eu não ligava, teu sorriso tudo me dizia. Quantas palavras não circularam nos íntimos odores daquele quarto enquanto as paredes nada ouviam senão o silêncio da cumplicidade. Sim, eu concordo contigo, dá a sensação que a gente se conhece há tempos, sim, eu concordo contigo, foi tudo tão rápido, nem era pra gente estar aqui, sozinhos, em quarto alheio, em cama alheia, em teto de outros amores, eu concordo contigo, veja o sol se espreguiçando pela veneziana, são que horas?, já são seis?, estamos há seis horas encaixando nossos vazios?, quantas vezes respiramos?, eu não sei, estava sem fôlego, risos, risos, silêncio, beijo, beijo, língua, língua, dedos, mãos, pés, pernas, umbigos, mamilos, seio, bundas, que coxas grossas, que corpo quente, que cobertor, o abraço da jibóia, qual é, te apertava até fazer suco, risos, risos, beijo, beijo, dormimos de lábios tocados, de cima dela de cima meu de baixo dela de baixo meu, suave, papilas, gôsto, noite inesquecível.

Você é muito doce.

Eu sei que vou te
Corta.
Tchau? Ei!
Corta.
Espe
Corta. Cena três, claquete cinco. Gravando.

Ele está na cama, deitado, olhando o teto enquanto tem na mão esquerda um livro de poemas de Castro Alves e na direita seu próprio pau melado. Ela chega, cara cansada. Ele pergunta.

— Chegou?
— .
— Veio pela porta?
— .
— Pisando o chão?
— .
— A chave estava com você?
— .
— Está cansada.
— Sim.
— Você tá muda.
— .
— Estava pensando na vida: não serei escravo desse mercado. Pensei na condição dos navios negreiros e então lembrei de você e seu trabalho. Não te associa nada?
— Nem.
— Eu já não sei o que falo com você.
— Desculpe, tô cansada. [Entra vinheta:] Á-Áu.

Faço mal em ser artista e gostar de você. Porque, por ser um deles (eu acho), tenho que lutar contra o estereótipo do artista que só pensa no seu umbigo e suas loucuras, que é amparado mas não ampara, e de certa forma você contribui pra esse est
Não liguei porque tive diarréia.
ótipo. Não, não digo lutar, porque parece que a rotulagem é a ditadura da segurança, mas veja, não dá pra ser conivente com tudo isso. Aí, quando vejo, no MSN abre a janelinha dábliu dábliu dábliu ponto bla bla bla ponto com ponto BR acabou de entrar. Você que põe todos os
Tô nem aí não, sou mais eu.
de Orkut, e pra quê dois perfis de Orkut? Quantos dos mil neguinhos que te adicionam porque curtem sua bunda vão fazer diferença pra você? Tem gente que tá nos dois perfis, catzo! Quando você pede pra lerem seus versos no mural de sua caixa postal, procura uma audiência gratuita? Porque dá a imp
Quem quiser posta, uai.
que é gente querendo divulgação a qualquer custo. Seu perfil é uma tentativa de resumir o que você é ao que você acha de bom em ser, e em todo lugar que te vejo há um banner pedindo leitura, clique. Você é uma
Artista precisa divulgar o trabalho.
e e ainda vem com papinho de que só adiciona quem conhece? Por favor, ó musa da internet, me adicione em seu perfil e serás agraciada com toda a sorte de Gostei, Da hora e Você é linda possível. Que frivolidade! Que punhetação! Você tá me ouvindo?
The message couldn't be sent because contact seems to be offline. Cena três, claquete seis.

Ele está na cama, deitado, olhando o teto enquanto tem na mão esquerda um livro de poemas de Guimarães Rosa e na direita seu próprio pau melado. Ela chega, cara cansada. Ele pergunta.

— Chegou?
— .
— Veio pela porta?
— .
— Pisando o chão?
— .
— A chave estava com você?
— .
— Está cansada.
— Sim.
— Você tá muda.
— .
— Eu já sei como a gente pode melhorar nossa comunicação. Estava lendo os trocadilhos e neologismos de um escritor aí e pensei em criar novos apelidinhos pra você. O que acha?
— Nem.
— Eu já não sei o que falo com você.
— Desculpe, tô cansada. [Entra vinheta:] Ton-tan-tân.

Tanta raiva dele. Eu o odeio, que ódio! Isso é amor reprimido. Se liga! Cuidado, você tá suprindo uma carência dela. Que cara é essa?! Nada. Se liga, eu que dei um basta! Logo vi. Aquele ingrato! Logo vi que
Sorriso de perolegria demoras
Teus fios que plumavam por cima das horas
De ter sob o couro uma grata ironia
A espuma da paz, que sorria, sorria

Ó musa desta noite, chicoteia sob a lua
Os uivos desolados de um lobo tão marcado
Agora vem o verso, vem rimando com tu nua
Moleque clicheteiro, tão lacrado, tão mercado, onde vai a arte?

Talvez seja mesmo o ano da morte
Trombetas da guerra
Travada em mim
Do meu fim

— Pegou, pegou? Eu, guerra, fim? Ok, vamos de novo.

Talvez seja mesmo o ano da morte
Trombetas da guerra
Travada em mim
Do-meu-fim

— Ainda não? Mas você é tão mórbida, como não? Eu... arte... Ahn, ahn? Não? Guerra... Ares... Marte... Mesmo assim, não? Fim... Morte... Não ainda!? Pôrra! Arte, Marte, Morte! Estava tão na cara! Brande sua trombeta
E eu apenas observo de cima, claro
A humanidade não me toca
Um advogado documentando a perda
Da minha própria causa:
O réu deu o créu, meretríssimo.

Meuretríssimo
A ré deu pra trás.

Advogado do diabo
Protesto!

Meuretríssimo
Negado!

CIiente
Eu paguei as contas do telefone à toa, meretríssimo.

Meuretríssimo
Ré, isto é verdade?


Sim, seuretríssimo.

Meuretríssimo
E você retornava?


Nunca, seuretríssimo.

TODOS fazem silêncio.

Meuretríssimo
Desordem, desordem no tribanal!
Corta.
Desordem!
Corta!
Des
Corta. Cena três, claquete sete. Gravando.

Ele está na cama, deitado, olhando o teto enquanto tem na mão esquerda um livro de poemas de Augusto Cury dos Anjos e na direita seu próprio pau melado. Ela chega, cara cansada. Ele pergunta.

— Chegou.
— ?
— Veio pela porta.
— ?
— Pisando o chão.
— ?
— A chave estava com você.
— ?
— Cansada.
— .
— Muda.
— .
— Estava pensando a morte, treinando a emoção para ser feliz. Que fazer diante do morcego que nos observa no escuro? Que fazer diante de seu sibilar augustiante? Líder de si mesmo, e eu aqui enjaulado, querendo voar conti
— Hein?
— É que eu já não sei o que falo com você.
— Desculpe, tô cansada. WoRn A mIlLiOn EaSy NoW, cinco seis sete sevo
cê põe aquele seu perfil
Lindo e alguém olha pra você
Eu digo que já não gosto dele
Que tudo isso é pose e está ficando démodé...
Só de cho
tu, tu, tu
— Alôu?
Tu, tu, tu.
— Alôu?
Tu, tu, tu.
— Á.
Tu, tu, tu.
— Oi?
Tu, tu, tu.
— Olá-á.
Tu, tu, tu.
— Tem alguém aí?
Tu, tu, tu.
— Você está aí?
Tu, tu, tu.
— Me fala alguma coisa.
Tu, tu, tu.
— Eu gosto de você, sabia?
Tu, tu, tu.
— Me retorna.
Tu, tu, tu.
— Eu gozei, sabia?
Tu, tu, tu.
— Não era pra estar falando isso, mas eu gozei.
Tu, tu, tu.
— Mas foi fora.
Tu, tu, tu.
— Eu parei,
Tu, tu, tu.
— tirei,
Tu, tu.
— bati o finzinho,
Tu.
— gozei,
Tu, tu, tu.
— E entutão eu tuvi votucê todatu abertuta, destufalecituda, pentusei estartu sonhantudo mas etura retual, e entutão percetubi que atu razãotu de existutir era nós, tu, nós, tu, nós, tu, entendeu, tu, entendeu, tu, tá ouvindo, tu, sacou, tu, bonzinho, tu, bonzinho, tu, ser tu tumano maratuvilhoso, tu, gentutil, gentuamatuvel, e então eu saquei, eu, sim, eu, que eu tinha que eu ter pensado eu em mais eu que eu que eu que tu!

[Som de telefone mudo]

É uma doença filha da puta. Coisa de sociedade moderna. Essa porra de neoliberalismo que faz a gente querer tudo em cápsulas de alta absorção. Faz desacreditar na continuidade. Quer benefício de pós-pago no primeiro mês de pré-pago. E o trabalho? E a crença? E a união pelos direitos? É claro que cada um por si vai ficar tudo cego. Em vez de ajuda, comprimidos. Em vez de diálogo, monólogos em perfis de páginas da internet. Não é que falta espelho nessa porra, é que não se fabricam mais luzes de teto. Bastam os faróis dos seios ou o joinha carimbado na carteira de trabalho. Se eu fosse dizer pro meu filho seguir uma carreira que tivesse certeza de sucesso, eu diria pra ele fazer Química ou Farmácia. Do jeito que os homens estão se sujeitando às receitas, o futuro só pode ser o das cápsulas! Por falar nisso, preciso dormir. Me passa a água. Preciso dormir, que acabei de me despedir de uma moça no metrô.
Perto da catraca acena a bela moça
O rosto sob os cabelos negros
Nenhuma alegria faiscou em seus olhos
Ouvi o eco de um profundo precipício
O bondoso e gentil escárnio de seu sorriso
Soterrando meus anseios sobre a própria casa
Da inscrição nietzscheana
Aos que entrarem, uma honra
E não haviam paredes, nem chão
Uma casa muito engraçada
Era uma tela no monitor de meu trabalho
Chegou trabalho! Ou melhor: Corta! Cena três, claquete oito.

Ele está na cama, deitado, olhando o teto enquanto tem na mão esquerda um livro de poemas de Mário Bortolotto e na direita seu próprio pau melado. Ela chega, cara cansada. Ele:

— Pop up!
— Fechar.
— Me dá um bei
— Fechar.
— Que tal essa
— Fechar.
— Você vai ho
— Ahhhhh, te odeio, te odeio, te odeio!

Relâmpago.

Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. Dez segundos.

Trovão.


Um desfibrilador.


Pupilas dilatadas.

Procurei a marca deixada no lençol, mas nele estavam apenas os restos petrificados de meu sêmen escapulido. Nenhuma curva, dobra, nenhuma profundeza no meu colchão. A chave estava no apartamento, a porta fechada por dentro. A janela, meu deus, a janela! Nada. Fechada como um túmulo. Sobre ele, livros, filmes, poemas guardados. Nem traças sobrevoam. Quis me despedir, mas tive sequer uma fagulha de clara lucidez pra poder saber se foi naquela cama que nos deitamos, ou se tristemente as nuvens foram cenário de um universo mítico endeusado pelos mais tolos e românticos prazeres de meus triplos, quádruplos sorrisos. Vai com
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4 de junho de 2009

Oi, rato

A razão de um ofício é trabalhar até
alcançar
o próprio inuso.


O sonho de um ser necessário
— se realmente necessário
— é não ser mais necessário

Qual objetivo de um médico
senão a saúde total de todos os seres?

Qual o do engenheiro senão
a mais harmoniosa logística humana?

E do advogado
senão a Justiça?

Da doença, do caos, do corrupto
A utopia justifica

Mas e o ator?
O que justifica o ator?
O que valoriza o teatro?

Que ator trabalha
almejando a própria
inutilidade?


O que o faz útil?
O que faz inútil?
O que faria?

Quantos fracassucessos
Quantas carreiras
Quantos anúncios

Se pensar ator vira

Ra-to
Quais antidepressivos não tomarei
Quando fazer as mesmas perguntas
Trocando os palcos pelos anúncios?

Que diferença faz eu publicitário?
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__

28 de maio de 2009

Sessão. Seção. Cessão.

— Muito bem. Time's up. São cenzão.
— Que cenzão?
— Os meus.
— Eu não sabia!
— Sinto muito.
— Eu não pensei que era assim.
— Seu tempo.
— Escuta aqui, eu falei tudo de mim!
— São cenzão.
— Mostrei fotos de meus filhos!
— São cenzão.
— Desabafei das minhas dores no seu colo!
— Cenzão.
— Te chamei de doutora. Minha maior fantasia, ter uma doutora cuidando de mim! E você não disse nada?!
— São.
— Em partes eu assumo que exagerei. Porque, logo de cara, no primeiro encontro? Te chamar de “minha doutora”? E eu achando que você iria resolver minhas vontades assim, só por ter jaleco?
— Esta é sua carteira?
— Mas como vou pagar, hein? Como?
— Se não pagar, te processo, te apreendo, te sumo, te sujo no Serasa.
— Tá, tá! Posso pagar em rim?
— Pode. Depois você reembolsa metade.
— Metade!
— Qualquer coisa é só ligar para o número atrás da sua carteirinha do seu plano de saúde.
— Plano de doença, isso sim.
— Obrigado e volte. Sempre!
— Sádica!
— Sádica não. Neoliberal.
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