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17 de julho de 2012

Dancas Brazileiras


PERSONAGENS
Deunisso
Pentelho
Palhaço
Hermes
Pai Euclides

DEUNISSO
O homem chegou deveras ao século vinte e um
e muitos dos de hoje habitam a era da máquina
− e não a do deus ex machina, aos romances de cinema
reservados e aceitos − discutem quando foi que ele,
o Homem, principiou a ruptura de sua alteridade.
− Etnocentrismo!, dizem uns. − Preconceito!, gritam outros.
O fato é que as crianças brothermente dizem sim aos games
mas negam seus avós, das raízes embora malemá estabelecidas,
e esperneiam pelo tecnoludens chutando o que é macumba;
e no que fecham-se a olhar o seu país da caravela
destroem sem saber (e isso passa), mas sem se importar (e isso não!)
o espírito deunissíaco da alteridade, e por isso dá que falam,
como ignopraga e, para sempre, com seus botões.
Mas calai! Todos! Que é hora de botar à prova o que digo.
Eis que vêm chegando os alunos de um certo curso
em que se pretende formar seres humanos melhorados.
Crianças de vinte, vinte e poucos anos de tempo presente
séculos e séculos de pretensiosos aspirados futuros,
e nem uma única semana de conhecido passado.
Elas vêm dançando, sorrindo, desejosas de evolução,
experimentando cada qual com suas restrições
o doce e o azedo de cada matéria de matrícula.
Cabeças e mais cabeças rolando e, no rolar dos crânio
lambe-se o chão por onde passam! Te escafede, Deunisso!

Sai Deunisso e entra coro de alunos.

CORO
Os deuses da sabedoria com a nota nos presentearam,
e cá estamos desfrutando de um direito conquistado
com muitas horas de sentado e calculado estudo;
dias de calorosos ensaios, e anos de segregação cultural
– embora não façamos questão de lembrar disso.
Eis-nos cá, de pés coçando e mentes fervilhantes.
Somos poetas, somos divinos, mais abertos ao viço do novo
que o brasileiro ao produto estrangeiro. Mas também
sabemos quando reconhecer nossa ignorância
– embora não façamos questão de lembrar disso!

CORIFEU
Somos fortes, somos lindos, somos melhores,
e viemos explorar cada informação passada em curso
ao favor de nossa formação de artista.
Entra, Pentelho, e sê por nós tudo o que Aristóteles
já leu no homem: sábio, guerreiro, rico e comelão!

Entra Pentelho.

PENTELHO
Já fui católico não-praticante, já fui ateu fervoroso.
Embora cristão de livros e acreditanças,
Considero-me a evolução do pensamento.
Vinde a mim as criancinhas, pois eu adoro o riso delas.
Deixai também chegar os velhos, pois eles têm muito
que ouvir de minhas descobertas. Mas abre vias,
especialmente ao artista dos congados e maracatus,
pois a arte do tocar o povo – o dele –, sim, eu quero extrair!

CORO
Três vivas para nossa existência! Viva! Viva! Viva!

PALHAÇO, de fora
Morta!

Entra Palhaço, acompanhado de coro de fanfarra. Ele dança com seu pau, faz piruetas, aperta nariz de algumas pessoas do coro de alunos. O coro de Palhaço pára. Os dois coros se estranham, mas não se enfrentam.O coro do Palhaço se sente mais à vontade.

PENTELHO
Quem és tu, ser de engraçadas vestes e interessantes gestes,
e que no tirso com o qual honrados atores me recordo agindo
te apóias, como se ele fosse parte de seu corpo e eixo?
Ouve a mim e fala: de onde vem, como faz, e o por quê!

PALHAÇO
Eu sou o que sou, sou o que você vê.
A não ser que seja cego, daí posso escondê.
Mas ao se dirigir a mim, uma coisa vô dizê:
fala com língua de gente, pra qu'eu possa entendê.

Palhaço dança. Sua banda toca.

PENTELHO
E tua máscara vem dos gregos? De Bali?
Da Commedia Dell'Arte? Katakali?





PALHAÇO
Dos gregos num foi, pois complicado falo não!
Nem dessa tal comédia de arte, pois eu fiz de coração.
Mas na última tu acerta, e o motivo é de se rir:
na cultura da minha terra, se cata aqui e cata ali!

Palhaço dança. Sua banda toca.

PENTELHO
Você é muito engraçado, mas embaraçado fico,
pois zombas de meus conhecimentos. Já não sei se rio
ou se viro as costas pro mundo: apesar de tanto saber
e tanto aplauso por me ver, rendo-me aos seus passos
e desconfio de todos os livros. Só ainda não faço
pois não sei quem é você. E não é à máscara que refiro:
até para minha derrocada há que se haver porquê.

PALHAÇO
Me permite perguntar o seu nome a você?

PENTELHO
É Pentelho, de nosso povo um herói.

PALHAÇO
Com tal rebolado, no máximo um Elói! (Palhaço dança. Sua banda toca.)
Agora me dá licença, tenho mais pr'onde passar.
Nas casa de coronel eu logo vou me entrar.
Boa sorte na jornada, nessa vida de saber,
que pra explicar a minha bíblia, eu prefiro é comer!

Sai dançando com seu coro atrás.

PENTELHO
Que maneiras mais sujas, e no entam-tam-tam vivas!
Sinto o meu próprio agir diferente, mas não sei o que me move.
É preciso saber mais, ver mais e, um dia, talvez, dançar!
Sim, pois quem sabe se a agilidade do palhaço poderá trazer
habilidade de jogo para meus palcos iluminados?
Pegai vossas mudas, que vamos atrás de uma oficina!

PALHAÇO, de fora.
Sina, sina, sina!

PENTELHO
Esses nossos sapatos de couro, reboques e all-stares
nunca deram o brilho, o impulso e o conforto
que o chão in natura fornecera ao Palhaço que cá estivera.
Meus vinte anos de estudos para cá me trouxeram
e agora que começo a ver, preferia ter pra cá já vindo cedo.
Mas se cá viesse, teria eu um dia visto?
Teríamos nós contemplado e, depois, valorizado
aquilo que hoje caro pago, se nos estudos
não tivessem nossos pais nos mergulhado?
Ó vil via, que nos leva a negar a própria via!

CORO
Ser ou não sido, eis a questão! Será mais nobre
em nosso espírito sofrer o sarcasmo dos sábios
com que o Saber, expandido, nos destina,
ou insurgir-nos contra a própria família
que nos fez crescer em moralismos?
Saber, viver... não mais! Saber é se ter sem usar,
e viver é usar sem se ter, e isso ainda não nos é indolor.
Desgraçado pensamento que tudo quer e a tudo domina!

PENTELHO
É burra a forma como fui aculturado. E preconceituosa!
Mas não vejo como negar o meu passado, que de Passado
nada nunca teve. Foge-nos a convicção e,
no entanto, não se vê o porquê: só se sente!
E o invisível caçoa de nossos passos tortos
e de nossos tropeços. Será um tropeço ter nascido em berço
de cristãos teleaprisionados? Será um tropeço, mesmo
que não tenha sido dado com pernas próprias?

CORIFEU
Meu senhor, assim o destino quis a Édipo e sua laia!

PENTELHO
Saber que não se sabe é delicioso e honrado.
Mas saber e não dançar... ah, e próprio do pateta!

Entra Hermes, os mensageiro.

HERMES
Umbando se aproxima! Ou será um banto?
Sua massa é grande, e vem a navios! E vem estranho!

PENTELHO
Estranho como?

HERMES
É feio e belo, é estranho e familiar, e é separado e unido.
E vem de longe, que no tempo ainda mais longe é perto.
Há sangue e esperma, choros e risos, ais e uis, êis e ois.

PENTELHO
Conta mais!

HERMES
Não posso, pois é distante.

PENTELHO
Deixa-os vir!

HERMES
Então não serei mais hermético.

PENTELHO
Que seja! Vou lá eu então.

Sai Pentelho e, depois, Hermes.

CORO
Aproxima-se de nós um desfile muito bem “pontuado”.
Quanto à vivacidade das formas, exclamações.
Quanto à natureza que nos põe de pé atrás, interrogações.
Às tentativas nossas de imitá-los, ponto-e-vírgula.
Por fim, no auto-questionamento, reticências!

CORIFEU
Em suma, lança-se ao vento a pergunta:
Como se livrar de todo o pensamento crítico,
que em nós é mais enraizado que as próprias raízes
que pretendemos analisar, e que estão prestes a se apresentar
diante de nossos olhos curiosos e atemorizados?

CORO
Temor? O que vem lá, que tanto nos atrai e repele?

CORIFEU
É o souvenir negreiro!

Entra coro africano, no qual estão misturados jejes, nagôs e bantos. Eles carregam mastros com símbolos do mar, da serpente e da árvore. Dançam. Ora ajuntam energia, ora expandem. Nas danças, formam batalhões, linhas e rodas. Nas rodas, enquanto dançam ritmicamente com os pés, o coro negro reproduz os gestos de cada orixá: afiar espada, colher ervas, ondas do mar, grandes unhas, tomar banho no lago etc. Há representações de orixás e voduns. Entra Pentelho.

PENTELHO
O que vejo aqui senão aqueles que poderão me acalmar?
Confirmo as palavras de Hermes, e ainda digo mais:
percebo a força de tais danças, mas não consigo
abandonar a censura. Até posso aceitar tais expressões,
mas não consigo acreditar nos estados de transe.

PAI EUCLIDES, que é corifeu do coro africano.
Nós num têm frescura. Vem e dança com seu negro,
que é braço e bolas de sua própria história, que a Casa de Mina,
E os candomblés amigos, podem brincar de rituar sem ciúme.

PENTELHO
Eu vou com a pulga, pra ver se purga!

PAI EUCLIDES
Se ocê num crê, num purga, só pulga.
Esquece a cabeça e dança!...

Começam a dançar. Pentelho é desajeitado.

PENTELHO
Isso é jeje, orixá, fom ou Daomé?

PAI EUCLIDES?
Dá no mesmo!

PENTELHO
Ou será Nagô? Iorubá? Vodum?

PAI EUCLIDES
Ora, deixa de separar coisa da coisa,
que o negro se abraçou na sua matança,
tirando das brigas pela aceitação da igreja branca
o jeito de se acostumá com a religião de fora.

PENTELHO
Mas e esse pé? Como vai ali por trás e volta aqui pela frente?
Percebo que a pelve ondula, que o joelho meneia, que o quadril cicia!

PAI EUCLIDES
Não esquematiza, ora! Dança de uma vez!
Não tenta copiar, só vem com a gente.

PENTELHO
A mão assim, o cotovelo assado, o ombro, pescoço...

PAI EUCLIDES
Fordismo dos diabos! Olha o eixo!

PENTELHO
Socorro!

PAI EUCLIDES
“Eixo”, não: “Exu”. Bah, bah, bah! Vou pro terreiro,
que aqui não tem axé. Simbora, meu povo!

PENTELHO
Mas já vai? Ainda não assimilei os passos.

PAI EUCLIDES
E nem vai. Só se fosse grego, e bem pré-socrático,
você entenderia o que é viver sem separação.
Vida e morte, céu e terra, mente e corpo, Ying e Yang,
– seja lá o que você quiser chamar! – oscila, e varia
entre um e outro sem nunca se saber quando é quem.
Se você não souber disso, e não souber com o coração,
não tem faculdade que vai fazer você entender. Oxalá!

PENTELHO
Mas então só me resta a referência do olho?

PAI EUCLIDES
E é o que cabe a todos os desertores. Já diria Bacantes!
Vai prum convento, ou melhor: vai prum museu! Oxalá!

Sai com o coro negro, que ainda dança.

PENTELHO
Mas, veja! Foram-se, e eu – quer dizer, nós! – ficamos!
O corpo, o corpo no tempo-espaço, e agora o corpo
no tempo-espaço e sentido. Sentido! Silêncio!
Preencher-se de sentido, mas que sentido faz não saber?
Os princípios da ação, a voz, o canto, onde eu encaixo?
Eu não poderei ser o futuro inoxidável – que quer dizer brilhante –
se não tiver o manual que me indique onde que cada peça
se encaixa nesse mural de informações. Pai Euclides!
Fala pra mãe! Que tudo que a antena captar meu coração captura!
Vê se me entende pelo menos uma vez, criatura!

Entra Deunisso numa máquinha.

DEUNISSO
Eu sou o todo, o passado, o futuro e o presente,
e venho aqui determinar a tragédia de sua vida.
Pentelho! Não viste, não aprendeste, e não te culpo.
No entanto, Édipo também não soubera, e ainda assim
coube a ele, e à sua raça, as desgraças de seus atos.
Tu és filho de outros desgraçados, que com a mágica
fizeram arma de fogo; que com lucro fizeram miséria;
que com arte fizeram status, e daí por diante você faz noção.
Tu és o rastro de ações que levaram-te a ser o que és.

PENTELHO
Mas e minha liberdade de escolha? Meu destino, por sinal,
já foi traçado ao nascer em berço de ocidentais urbanos?

DEUNISSO
Mais ou menos. És livre, mas, sem saber o que se é,
bem como perguntou a Esfinge ao mais famoso cego,
será devorado pela violência do Caos inalcançável.
Pois alteridade se trabalha com a experiência contínua,
não com as doses com a qual você se vê satisfeito:
“Olho uma vez, e já compreendo.” – Basta! Vai, vive sua vida.
Ou esquece disso, ou sê um inconformado em busca de si,
pois só assim serás grandioso como pensa um dia ser. (Sai.)

PENTELHO
Espera! Espera! Si é uma nota? Em dó maior?
Espera, que eu preciso anotar no meu caderno! Ei! (Sai, ao correr atrás dele.)

CORO
Entre quem e o quem, qual deve ser compreendido?
Aquele que é, ou aquele que quer tudo sê?
A educação nos fez famintos por fast-food
e nosso corpo agora só digere carne-coisa e temperos mil.
São porradas que fazem ver, mas o que se vê são sombras,
fantasmas de Hamlet, os pais assassinados pelos tios
que ambição queriam. Tios, esses, chamados Intolerância,
Irmãos do Kitsch, e de nomes que não se arrisca dizer.
A assepsia de uma cultura regrada – agora que tudo se vê
mas que ainda não se sente, ou que não se faz parte –
Não nos deixa deitar as pestanas do fazer artístico.  
A vista da superficialidade não nos deixa dormir profundo
e decepados deveríamos ser, para poder entrar de corpo e alma
nas danças que nossos antigos já faziam, sentiam, e sabiam.
Museu, sim! Vamos ao museu, pois é onde cabem
aqueles que souvenizam tudo que tocam. Midas avessos!
Alteridade! Os nagôs, bantos, jejes, viverão sem nós
e até nós sem eles. Mas quem será mais feliz?
Só os deuses dirão. (Coro sai.)

Silêncio. Entra Palhaço.

PALHAÇO
Antes se cantava musa, hoje se conta museu.
Se me perguntam da coisa, quem não sabe sou eu.
Gente que diz ser culta, mas que nada cultua,
se quer saber de uma coisa: saber se dá na rua!
Se me levam pra ver suas peças, eu respondo no ato:
é por nos ver como pobres, que pobres não vêm o teatro! (Sai.)

FIM.

31 de março de 2009

Hai Kai de como começar uma relação desamarrada cujo equilíbrio é o próprio movimento de uma dança

Etiquetar é parte de uma etiqueta
Que não consigo...
eu,
quer dizer,
eu, tento,
digo...
não, não quero
perguntam e
bem...
não consigo...

Não consigo

O perfume de nós colados
Se resume a quatro letras
E alguns pontos finais
assim:

Hmmm...

Dá isso uma etiqueta?
Dá o tal ponto final?
Um resumo que se expande
Reti...scent?

Uma resposta sem paredes

Olá, oi, olá, oi, tudo bom?
Vem cá, oi, vem cá, oi, vem.
Confesso que me afobo
abafo-afago-afobo-agafo
— A linha clássica

Mas se leve, deixa-me levar:
Assim nos deixe
dançar em nós

Meu palco, meu baile
Seu infinito improvisar

Pois a gente tenta dar uns nomes
Como os deste aqui poema
Descrever sem restringir
Definir sem limitar
E dá num título
maior em palavras
menor em todo o resto!

E pra quê?
Pra quem?

Deixo o hai kai
"de como começar uma relação desamarrada cujo equilíbrio é o próprio movimento de uma dança"
pra quem quiser dizer
o que vê na gente
quando eu digo que nos vejo:

Eu com pé à frente
Você com pé atrás, e
Dançamos em nós
__
__

28 de julho de 2008

O branco piscar de meus olhos

__Dizia à Teresa, que apesar da raridade de conversas nossas, dos poucos mimos e cheirinhos trocados ao longo da vivência, e quase até mesmo da não essencialidade aparente com que poderia passar um sem o outro, dizia à Teresa “eu gosto de você”, e eu ia dizendo meio dito sem prolongação, seco e pautado como fui, quatro palavras ou pouco mais que isso, querendo tomar o caminho que desaguaria nas sinceras e ursinhas revelações de amizade esquisita e indemonstrada, em praia de acenos e despedidas, a última chance de se cantar as homenagens contidas, choranrindo, “foi depois daquela conversa que passei a te ver de jeito mais admiroso”, “gelado, silencioso e pontual, mas como irmão, é como te quero sorrindo no topo”, “não sei se você de mim, mas eu gosto muito de você”, e muito mais fofonhices abraçais, bobas-mas-sinceras, quando Vitória flagrou red-handed, blink-eyed, o tremelique das pálpebras, o corte no filme, o remendo no tecido, o silencioso gaguejar de minhas virtudes, e anunciou à toda mesa o caráter do crime incontido de fechar de olhos. “Quem fecha o olho pra falar, quer dizer que é falso.”
__
__O parceiro que escancara os pontos fracos de seu comparsa, a filha que desmente a mãe perante o tribunal, o sancho que escarnece de quixote quando em sua sanidade, as suspeita levantada sobre a proveniência de rubis presenteados pelo arlequim à princesa durante seu baile de quinze anos, são tantos exemplos, mas tantos tão distantes do assalto sofrido com a acusação de falsidade, que me foi impossível, pois paralisado, dizer qualquer palavra de desapontamento. “Por quê?” “Por que as taxativas travessuras?” “Por que o desejo de arrancar minha pele como uma máscara teatral e apontar em riste à carne exposta, exclamando ser aquela feição a verdadeira diretora que se esconde atrás dos panos, em cujos palcos se apresentam atores amadores que, na apoteose, piscam inorgânicos?”
__
__Estando o pai longe de casa, distante da casa das duas mulheres, o filho não teve conversas sujas, másculas ou viscerais. Talvez o pai acreditasse que o filho estivesse preparado e guerreiro, e que seus conselhos e tirações beirariam a tolice de quem, tradicional de passado austero e pároco, aconselha ao jovem a malandragem das vielas de carnaval. Nas iscas lançadas ao mar gelado, nunca um peixe de aflição, felicidade ou sacanagem. A proximidade do lançamento gancho assemelhava-se ao frio intestinal e ao descontrole retal de um adolescente que disca o telefone sem nunca completar a ligação à garota com quem deseja sair ao cinema. De francas, sempre somente as conversas augustas, nunca as ruaugustas, ao filho tanto carecidas; e foi desse ártico de onde o filho aprendeu a disfarçar amores, contornar objetividades, abafar os pulsos.
__
__O filho não se lembra qual foi a última vez que disse “eu te amo” à mãe, à irmã e ao pai; prefere as cadeiras afastadas, onde pode apreciar silencioso o banquete familiar; e não sabe abraçar com ternura e sem pudor o amigo que chora ou se alegra. Mas não dizer “eu te amo” não quer dizer que o filho não ame a mãe, a irmã e o pai; a escolha do assento e do silêncio não deveria induzir à conclusão de que o filho odeia a convivência e se cala por desgosto; o tropeço do abraço, ou mesmo o congelamento, não redundam em frieza de alma. Por que taxar de estéril o filho que gagueja, treme e pisca? Por que carimbar falsidade à 'insegurança' de quem sempre 'segurou' consigo os brinquedos mais coloridos, por medo de quebrarem? Por que não abrir o tribunal à palavra das reações psicossomáticas, reflexos de um corpo destreinado, inapto a expor as vontades guardas, hesitante a ceder a chave que abre o baú de rubis mediterrâneos, tal como as pernas que convulsionam os joelhos quando as mãos se esticam para tocarem o inalcançável dedão do pé, ou tal como os olhos que, confusos, bancam os idiotas ao fecharem os portais da alma justo no momento em que a flama invisível do amor desinteressado saltava o abismo do tempo para pousar bela como uma fênix, nos jardins da íris, no buraco negro da retina e nas águas da memória as sementes de sinceridade nunca dantes naqueles campos semeadas?
__
__O paradoxo do bom escritor, péssimo orador? Que jorra estrofes de poesia escrita, mas incapaz de modelar uma confissão falada? As flores imaginadas de seus versos são as mentiras de uma realidade pálida? Um excelente redator de manuais de aeronaves, pois o que se eleva é o piloto que não as lê? Pois porra que bastamarras, bastamarras, porque, porque ;0
__
__porque no entanto, no entanto, o filho quer voar, quer voar e chegar, sem planejar, sem pensar, quer dizer que ama Teresa, Vitória e Shirlei, que as ama sem ciúme, que as ama de querer bem, que as ama de morder as bochechas envergonhadas, que ama suas peles, seus olhos, sorrisos, dengos e medos, e vai mostrar com simpáticos dentes que no Ártico onde o filho aprendeu a ser o que será-era, os esquimós identificam dezenas de tonalidades de branco, dezenas de branco, e há nesse esquimó dezenas de matizes de branco amor, brancos de quem cresceu na geleira das almas, não brancos de sem-cor, mas brancos de luz, quantos brancos forem precisos, nunca o mesmo branco que dedico a cada uma, hoje o filho só saberia iluminar as dificuldades da exposição por meio de um quadro Monetista, pouco provável que o conseguisse no mirar dos olhos, mas só hoje, só até hoje a pasmaceira, trema mesmo, trema sem vergonha, só hoje o branco é névoa, só hoje, seus queira, porque para elas, o amor delas, especialmente porque graças a elas, Teresa, Vitória e Shirlei, o filho pôs a mão no bolso onde está a chave do baú, o filho estudou largar os brinquedos coloridos no parque, o filho abriu o cu do certinhismo, o filho des(r)ancorou do pólo restrito, e onda a onda, brilho a brilho, vai, filho, vai, pai, vai, irmã, mãe e irmãs, aos poucos vejam que meu sorriso não tem o mesmo branco e muito menos tem de amarelo cinza ocre, que meus tropeços de patinho feio, bem, são tropeços, quem não?, mas eu amo vocês, não se melem, eu amo vocês, venha pai para os trópicos, venha mãe matar a sede de abraços derretidos, venham amigos, venham, com ou sem piscar de olhos tímidos, a flama louca aterrissa no alvo de seus olhos expectativos, o corpo menos tensiona e segura, e mais dança e abraça e afaga, e no fim de tudo, no fim-começo de tudo, entrego-me-lhes em beijos rubis, vocês em eternos quinze anos, eu em eternos arlequins de brancos losangos, cada um sendo uma, tecidas no manto que orgulhosamente ostento, exuberantes como os beijos carnudos que molho nas bochechas desprevinidas de suas tão brancas amizades.
__
__Boa viagem. Eu... bem, eu amo vocês.
__
__

17 de janeiro de 2008

Todo o nada

O quê
o branco?

senão o nada
que é mais nada
que o tudo
em seu tudo-ou-nada?

O que o branco
senão criar
senão pintar
senão fazer
num instante
congelado?

Papel branco
pra amassar
rabiscar
refletir
desafiar

Que quer em mim, pergunta
Eu, respondo

Tem nada que é treva
pedindo por luz
querendo os caminhos
ir nenhum lugar
com medo de achar

Meu nada é a tela
pedindo curvas
sem querer caminho
ir qualquer lugar
desejo de encontrar

É quando o branco
me explora
se espalha
pelo que é meu
creia do nada
crie de novo
tum toque foge
um toque vem
e tudo que tinha
já é nada
pelo nada
que já me tem

Vou sendo preenchido
com o vazio do porquê
espalha sobre as letras
com leveza segurança
no branco mergulhado
letras sobre ela

E o que ser ela
senão este branco
do criar?

Corpo branco
pra amassar
rabiscar
refletir
desafiar

o que não fui

Eu dentro do branco
o branco dentro do eu
jorra um pouco de nada
que descortina
que incita

Cadê você
que se dizia emaranhado
se o que vê
é Narciso admirado
num lago abaixo do céu
branco
e procura no lago brando
o céu?

As poças do meu passado
todas negras
tão rasas
não é Narciso
quem se ajoelha
é um si
profundo de lago
de lago branco
no toque da água
são eu milhares
cristais de mim em ondas
brancas
eu beijo
eu sumo
eu nado

O piso que não há
e antes tinha
é de cair pra quem quer tudo
ou pra voar pra quem é nada

Começar
é terminar

Segurar
pra insegurar

Em tua poesia vivida
vi
vida

Queria deixar em teu branco
uma poesia
com a forma que é teu branco:
qualquer tudo!
que não absorve
reflete
e saber que
no fundo
no fundo
sou um nada!

Queria deixar em teu branco
uma poesia
com quem quer nada
com a forma que é teu branco
uma poesia
apaixonada

__
__

4 de outubro de 2007

Vampsi

Sibile

Respirar ofende.

No entanto, o transporte penetra a rodovia e rasga o silêncio cerimonioso da madrugada. Corta e penetra o âmbar, motor acelerando no vazio e depositando cá e lá homens de cachacinha. A caravana repleta de torcedores dum jogo de futebol. Extasiados, comentam e terminam as latas. A cerveja transpirada, o bocejo contido no riso.

Pedaço dele na noite, pedaço de noite nele, isolado ao fundo dos bancos, de figurino, alheio ao que se passa e de olho no silêncio de fora. O vidro o reflete. Ele dentro, ele fora, a contemplação do nada, o motor e os gargalhos o ofendem. A velocidade lhe corta os pulsos.


Nossívago

Meio relógio circulou até que avistasse o derradeiro, o corujão. O assassino quase o deixa passar; um pouco de si neste sangue nos olhos; mas ouviu a súplica das pernas.

Subiu tão taciturno que não se sabe: se a noite a ele, ou ele a noite, quem a quem fagocitara.


Sifônico

Track search, play, stop, track search, play, stop. A busca de uma canção que combinasse. Nada tristto suficiente. Na rádio achou algo para escorrer. Veio dos campos cujas parabólicas do ouvido custaram captar.

Mas, ao final, devaneios são sinfonias completas.


Off.


Sima

Beija a garota com volúpia, mas não se entorpece. Não se exalta, inebria ou fulgura. Beija por vingança.

Beijá-la o chicoteia.

Não é feia, é linda, é maravilhosa. Mas "se vinga-se" enquanto fode a própria brincadeira; chupa-a, ela fica sem o sangue, que é dele, e quanto mais tenta fugir, mais o deixa nela afundar, ela, que tenta sair, mas ele, que nela afunda, ele é o mangue.

O fim é preciso. O desfecho dessa noite é preciso. Busca vidros embaçados, ou escorrendo de calor. Gozar é o ápice de seu açoite.

Sofre, sofre quando expulsa o gemido final. Não é por ela, ou melhor, não é por esta, é por outra. O corpo desta é seu chicote. E a extrema unção deste delírio em par se esvai quando o coito razões extingue.

Ele a quer vaporizada.

Seu corpo perfeito, seus olhos de amor o enojam. Pudera ser porra um ácido que a corroesse por dentro e a extinguisse, da mesma forma como já o extingue por dentro, o corrói e o desespera por não ter sob si quem cuja companhia ele anseia experimentar.


Ansia

Entre os vampiros, há o provérbio que adverte desprevenidos ante flechadas de prata:
Vampiro sente ânsia
quando em mulher qualquer escoa
Perigo é se no sem-distância
Lhe encanta ficar à-tôa

É qualquer o tipo da vítima que arfa sob sua cobertura. Enquanto a sucure, pune-a. Pune-a sem que ela o saiba. "Goza, goza, garota, e aproveita seu último segundo."

"Morre feliz..."


E não.

A erupção. Os níveis subindo.

Coxas bambas, joelhos moles, batatas contraídas, sola dos pés formigando; diafragma exausto, coração tum-TUM-TÁ, pulmões taquicardíacos, boca a baba, mãos formigando, pupilas cegas, rubror.

Cai exausto sobre ela; ela ama-o gesto; este se lembra quem afoga.

Seu gozo jorra a lembrança de quem deseja. Um desejo à-tôa. Um desejo perdido, alguns anos atrasado. Ela com outro, ela sorrindo com outro, e ele com esta, que está sorrindo também, como se fosse à-tôa, como se fosse a outra.

Esta, na cama, o chama. Chama, chama, ele não vem. Chama acende seu cigarro. É mais uma faísca na madrugada metropolitana. Nu, queria voar, se lançar. O vento apaga a bitoca e ainda assim ele traga. Radar, procura aquela. Procura seu carro. Procura quem seja. O som abafado da avenida chega ao parapeito do décimo segundo andar; o filtro chega ao térreo, pouco antes da consciência abandonada.

Já calçado, pisa sobre o cigarro há pouco lançado lá do alto. O chuveiro ligado engana a garota que espera em concha pelo seu abraço.


Pênsi

Uma liga, xinga. Deixou-a esperando.

É verdade, a agenda marcara.

Pensar com o pênis, na conveniência, no glamour etc. é fórmula garanha. Mas a agenda foi guardada na gaveta há duas semanas. A verdade é que só esta ligou puta. Podia mais. As outras engoliram a seco. A administração rotineira rui perante a crise: a recusa da agenda. Não há calendário datado quando a preferência é por aquela, e só aquela.


Sila

Noutro dia, noutra nova, não aquela.

Cocotas passam por ele, seu gozo de suplício não.

Lágrimas delas, escorridas no ofego. Ele também chora, mas não é de gozo, nem por elas.

Poderia ter aquela como qualquer outra tida, no entanto chora o gozo das tidas porque daquela prefere a escolha, não a captura, não garanhatida.

Resta beber lágrimas, as suas, junto ao sangue sorvido no pescoço de suas vítimas.

Quando a vítima é si de si.


Sina

Louco e indeciso, sem nada nas mãos, Davi desafia Golias num campo secreto. O gigante, conhecido de longa data, seguro e garantido, mal sabe do oponente.

Cego, cego, segue o cheiro. Coração de inteligente é um burro soberano.



Tolhe

O caminho pulado, resta-lhe sua companhia noturna em páginas sangradas. Devaneios sinfônicos, suspiros solistas, cismas sísmicas. Fim de uma noite produtiva e calcinada.

O vampiro se deita. Cruza os braços e adormece. Repleto de sangue estaria, caso a velocidade não o esvaziasse. Água também lhe falta.

Cobre-se com seu firmamento negro, inspira o silêncio, submerge na deriva de sua cíclica condição.


Respirar ofende.
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