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17 de julho de 2012

Dancas Brazileiras


PERSONAGENS
Deunisso
Pentelho
Palhaço
Hermes
Pai Euclides

DEUNISSO
O homem chegou deveras ao século vinte e um
e muitos dos de hoje habitam a era da máquina
− e não a do deus ex machina, aos romances de cinema
reservados e aceitos − discutem quando foi que ele,
o Homem, principiou a ruptura de sua alteridade.
− Etnocentrismo!, dizem uns. − Preconceito!, gritam outros.
O fato é que as crianças brothermente dizem sim aos games
mas negam seus avós, das raízes embora malemá estabelecidas,
e esperneiam pelo tecnoludens chutando o que é macumba;
e no que fecham-se a olhar o seu país da caravela
destroem sem saber (e isso passa), mas sem se importar (e isso não!)
o espírito deunissíaco da alteridade, e por isso dá que falam,
como ignopraga e, para sempre, com seus botões.
Mas calai! Todos! Que é hora de botar à prova o que digo.
Eis que vêm chegando os alunos de um certo curso
em que se pretende formar seres humanos melhorados.
Crianças de vinte, vinte e poucos anos de tempo presente
séculos e séculos de pretensiosos aspirados futuros,
e nem uma única semana de conhecido passado.
Elas vêm dançando, sorrindo, desejosas de evolução,
experimentando cada qual com suas restrições
o doce e o azedo de cada matéria de matrícula.
Cabeças e mais cabeças rolando e, no rolar dos crânio
lambe-se o chão por onde passam! Te escafede, Deunisso!

Sai Deunisso e entra coro de alunos.

CORO
Os deuses da sabedoria com a nota nos presentearam,
e cá estamos desfrutando de um direito conquistado
com muitas horas de sentado e calculado estudo;
dias de calorosos ensaios, e anos de segregação cultural
– embora não façamos questão de lembrar disso.
Eis-nos cá, de pés coçando e mentes fervilhantes.
Somos poetas, somos divinos, mais abertos ao viço do novo
que o brasileiro ao produto estrangeiro. Mas também
sabemos quando reconhecer nossa ignorância
– embora não façamos questão de lembrar disso!

CORIFEU
Somos fortes, somos lindos, somos melhores,
e viemos explorar cada informação passada em curso
ao favor de nossa formação de artista.
Entra, Pentelho, e sê por nós tudo o que Aristóteles
já leu no homem: sábio, guerreiro, rico e comelão!

Entra Pentelho.

PENTELHO
Já fui católico não-praticante, já fui ateu fervoroso.
Embora cristão de livros e acreditanças,
Considero-me a evolução do pensamento.
Vinde a mim as criancinhas, pois eu adoro o riso delas.
Deixai também chegar os velhos, pois eles têm muito
que ouvir de minhas descobertas. Mas abre vias,
especialmente ao artista dos congados e maracatus,
pois a arte do tocar o povo – o dele –, sim, eu quero extrair!

CORO
Três vivas para nossa existência! Viva! Viva! Viva!

PALHAÇO, de fora
Morta!

Entra Palhaço, acompanhado de coro de fanfarra. Ele dança com seu pau, faz piruetas, aperta nariz de algumas pessoas do coro de alunos. O coro de Palhaço pára. Os dois coros se estranham, mas não se enfrentam.O coro do Palhaço se sente mais à vontade.

PENTELHO
Quem és tu, ser de engraçadas vestes e interessantes gestes,
e que no tirso com o qual honrados atores me recordo agindo
te apóias, como se ele fosse parte de seu corpo e eixo?
Ouve a mim e fala: de onde vem, como faz, e o por quê!

PALHAÇO
Eu sou o que sou, sou o que você vê.
A não ser que seja cego, daí posso escondê.
Mas ao se dirigir a mim, uma coisa vô dizê:
fala com língua de gente, pra qu'eu possa entendê.

Palhaço dança. Sua banda toca.

PENTELHO
E tua máscara vem dos gregos? De Bali?
Da Commedia Dell'Arte? Katakali?





PALHAÇO
Dos gregos num foi, pois complicado falo não!
Nem dessa tal comédia de arte, pois eu fiz de coração.
Mas na última tu acerta, e o motivo é de se rir:
na cultura da minha terra, se cata aqui e cata ali!

Palhaço dança. Sua banda toca.

PENTELHO
Você é muito engraçado, mas embaraçado fico,
pois zombas de meus conhecimentos. Já não sei se rio
ou se viro as costas pro mundo: apesar de tanto saber
e tanto aplauso por me ver, rendo-me aos seus passos
e desconfio de todos os livros. Só ainda não faço
pois não sei quem é você. E não é à máscara que refiro:
até para minha derrocada há que se haver porquê.

PALHAÇO
Me permite perguntar o seu nome a você?

PENTELHO
É Pentelho, de nosso povo um herói.

PALHAÇO
Com tal rebolado, no máximo um Elói! (Palhaço dança. Sua banda toca.)
Agora me dá licença, tenho mais pr'onde passar.
Nas casa de coronel eu logo vou me entrar.
Boa sorte na jornada, nessa vida de saber,
que pra explicar a minha bíblia, eu prefiro é comer!

Sai dançando com seu coro atrás.

PENTELHO
Que maneiras mais sujas, e no entam-tam-tam vivas!
Sinto o meu próprio agir diferente, mas não sei o que me move.
É preciso saber mais, ver mais e, um dia, talvez, dançar!
Sim, pois quem sabe se a agilidade do palhaço poderá trazer
habilidade de jogo para meus palcos iluminados?
Pegai vossas mudas, que vamos atrás de uma oficina!

PALHAÇO, de fora.
Sina, sina, sina!

PENTELHO
Esses nossos sapatos de couro, reboques e all-stares
nunca deram o brilho, o impulso e o conforto
que o chão in natura fornecera ao Palhaço que cá estivera.
Meus vinte anos de estudos para cá me trouxeram
e agora que começo a ver, preferia ter pra cá já vindo cedo.
Mas se cá viesse, teria eu um dia visto?
Teríamos nós contemplado e, depois, valorizado
aquilo que hoje caro pago, se nos estudos
não tivessem nossos pais nos mergulhado?
Ó vil via, que nos leva a negar a própria via!

CORO
Ser ou não sido, eis a questão! Será mais nobre
em nosso espírito sofrer o sarcasmo dos sábios
com que o Saber, expandido, nos destina,
ou insurgir-nos contra a própria família
que nos fez crescer em moralismos?
Saber, viver... não mais! Saber é se ter sem usar,
e viver é usar sem se ter, e isso ainda não nos é indolor.
Desgraçado pensamento que tudo quer e a tudo domina!

PENTELHO
É burra a forma como fui aculturado. E preconceituosa!
Mas não vejo como negar o meu passado, que de Passado
nada nunca teve. Foge-nos a convicção e,
no entanto, não se vê o porquê: só se sente!
E o invisível caçoa de nossos passos tortos
e de nossos tropeços. Será um tropeço ter nascido em berço
de cristãos teleaprisionados? Será um tropeço, mesmo
que não tenha sido dado com pernas próprias?

CORIFEU
Meu senhor, assim o destino quis a Édipo e sua laia!

PENTELHO
Saber que não se sabe é delicioso e honrado.
Mas saber e não dançar... ah, e próprio do pateta!

Entra Hermes, os mensageiro.

HERMES
Umbando se aproxima! Ou será um banto?
Sua massa é grande, e vem a navios! E vem estranho!

PENTELHO
Estranho como?

HERMES
É feio e belo, é estranho e familiar, e é separado e unido.
E vem de longe, que no tempo ainda mais longe é perto.
Há sangue e esperma, choros e risos, ais e uis, êis e ois.

PENTELHO
Conta mais!

HERMES
Não posso, pois é distante.

PENTELHO
Deixa-os vir!

HERMES
Então não serei mais hermético.

PENTELHO
Que seja! Vou lá eu então.

Sai Pentelho e, depois, Hermes.

CORO
Aproxima-se de nós um desfile muito bem “pontuado”.
Quanto à vivacidade das formas, exclamações.
Quanto à natureza que nos põe de pé atrás, interrogações.
Às tentativas nossas de imitá-los, ponto-e-vírgula.
Por fim, no auto-questionamento, reticências!

CORIFEU
Em suma, lança-se ao vento a pergunta:
Como se livrar de todo o pensamento crítico,
que em nós é mais enraizado que as próprias raízes
que pretendemos analisar, e que estão prestes a se apresentar
diante de nossos olhos curiosos e atemorizados?

CORO
Temor? O que vem lá, que tanto nos atrai e repele?

CORIFEU
É o souvenir negreiro!

Entra coro africano, no qual estão misturados jejes, nagôs e bantos. Eles carregam mastros com símbolos do mar, da serpente e da árvore. Dançam. Ora ajuntam energia, ora expandem. Nas danças, formam batalhões, linhas e rodas. Nas rodas, enquanto dançam ritmicamente com os pés, o coro negro reproduz os gestos de cada orixá: afiar espada, colher ervas, ondas do mar, grandes unhas, tomar banho no lago etc. Há representações de orixás e voduns. Entra Pentelho.

PENTELHO
O que vejo aqui senão aqueles que poderão me acalmar?
Confirmo as palavras de Hermes, e ainda digo mais:
percebo a força de tais danças, mas não consigo
abandonar a censura. Até posso aceitar tais expressões,
mas não consigo acreditar nos estados de transe.

PAI EUCLIDES, que é corifeu do coro africano.
Nós num têm frescura. Vem e dança com seu negro,
que é braço e bolas de sua própria história, que a Casa de Mina,
E os candomblés amigos, podem brincar de rituar sem ciúme.

PENTELHO
Eu vou com a pulga, pra ver se purga!

PAI EUCLIDES
Se ocê num crê, num purga, só pulga.
Esquece a cabeça e dança!...

Começam a dançar. Pentelho é desajeitado.

PENTELHO
Isso é jeje, orixá, fom ou Daomé?

PAI EUCLIDES?
Dá no mesmo!

PENTELHO
Ou será Nagô? Iorubá? Vodum?

PAI EUCLIDES
Ora, deixa de separar coisa da coisa,
que o negro se abraçou na sua matança,
tirando das brigas pela aceitação da igreja branca
o jeito de se acostumá com a religião de fora.

PENTELHO
Mas e esse pé? Como vai ali por trás e volta aqui pela frente?
Percebo que a pelve ondula, que o joelho meneia, que o quadril cicia!

PAI EUCLIDES
Não esquematiza, ora! Dança de uma vez!
Não tenta copiar, só vem com a gente.

PENTELHO
A mão assim, o cotovelo assado, o ombro, pescoço...

PAI EUCLIDES
Fordismo dos diabos! Olha o eixo!

PENTELHO
Socorro!

PAI EUCLIDES
“Eixo”, não: “Exu”. Bah, bah, bah! Vou pro terreiro,
que aqui não tem axé. Simbora, meu povo!

PENTELHO
Mas já vai? Ainda não assimilei os passos.

PAI EUCLIDES
E nem vai. Só se fosse grego, e bem pré-socrático,
você entenderia o que é viver sem separação.
Vida e morte, céu e terra, mente e corpo, Ying e Yang,
– seja lá o que você quiser chamar! – oscila, e varia
entre um e outro sem nunca se saber quando é quem.
Se você não souber disso, e não souber com o coração,
não tem faculdade que vai fazer você entender. Oxalá!

PENTELHO
Mas então só me resta a referência do olho?

PAI EUCLIDES
E é o que cabe a todos os desertores. Já diria Bacantes!
Vai prum convento, ou melhor: vai prum museu! Oxalá!

Sai com o coro negro, que ainda dança.

PENTELHO
Mas, veja! Foram-se, e eu – quer dizer, nós! – ficamos!
O corpo, o corpo no tempo-espaço, e agora o corpo
no tempo-espaço e sentido. Sentido! Silêncio!
Preencher-se de sentido, mas que sentido faz não saber?
Os princípios da ação, a voz, o canto, onde eu encaixo?
Eu não poderei ser o futuro inoxidável – que quer dizer brilhante –
se não tiver o manual que me indique onde que cada peça
se encaixa nesse mural de informações. Pai Euclides!
Fala pra mãe! Que tudo que a antena captar meu coração captura!
Vê se me entende pelo menos uma vez, criatura!

Entra Deunisso numa máquinha.

DEUNISSO
Eu sou o todo, o passado, o futuro e o presente,
e venho aqui determinar a tragédia de sua vida.
Pentelho! Não viste, não aprendeste, e não te culpo.
No entanto, Édipo também não soubera, e ainda assim
coube a ele, e à sua raça, as desgraças de seus atos.
Tu és filho de outros desgraçados, que com a mágica
fizeram arma de fogo; que com lucro fizeram miséria;
que com arte fizeram status, e daí por diante você faz noção.
Tu és o rastro de ações que levaram-te a ser o que és.

PENTELHO
Mas e minha liberdade de escolha? Meu destino, por sinal,
já foi traçado ao nascer em berço de ocidentais urbanos?

DEUNISSO
Mais ou menos. És livre, mas, sem saber o que se é,
bem como perguntou a Esfinge ao mais famoso cego,
será devorado pela violência do Caos inalcançável.
Pois alteridade se trabalha com a experiência contínua,
não com as doses com a qual você se vê satisfeito:
“Olho uma vez, e já compreendo.” – Basta! Vai, vive sua vida.
Ou esquece disso, ou sê um inconformado em busca de si,
pois só assim serás grandioso como pensa um dia ser. (Sai.)

PENTELHO
Espera! Espera! Si é uma nota? Em dó maior?
Espera, que eu preciso anotar no meu caderno! Ei! (Sai, ao correr atrás dele.)

CORO
Entre quem e o quem, qual deve ser compreendido?
Aquele que é, ou aquele que quer tudo sê?
A educação nos fez famintos por fast-food
e nosso corpo agora só digere carne-coisa e temperos mil.
São porradas que fazem ver, mas o que se vê são sombras,
fantasmas de Hamlet, os pais assassinados pelos tios
que ambição queriam. Tios, esses, chamados Intolerância,
Irmãos do Kitsch, e de nomes que não se arrisca dizer.
A assepsia de uma cultura regrada – agora que tudo se vê
mas que ainda não se sente, ou que não se faz parte –
Não nos deixa deitar as pestanas do fazer artístico.  
A vista da superficialidade não nos deixa dormir profundo
e decepados deveríamos ser, para poder entrar de corpo e alma
nas danças que nossos antigos já faziam, sentiam, e sabiam.
Museu, sim! Vamos ao museu, pois é onde cabem
aqueles que souvenizam tudo que tocam. Midas avessos!
Alteridade! Os nagôs, bantos, jejes, viverão sem nós
e até nós sem eles. Mas quem será mais feliz?
Só os deuses dirão. (Coro sai.)

Silêncio. Entra Palhaço.

PALHAÇO
Antes se cantava musa, hoje se conta museu.
Se me perguntam da coisa, quem não sabe sou eu.
Gente que diz ser culta, mas que nada cultua,
se quer saber de uma coisa: saber se dá na rua!
Se me levam pra ver suas peças, eu respondo no ato:
é por nos ver como pobres, que pobres não vêm o teatro! (Sai.)

FIM.

17 de dezembro de 2009

2009+1

— Ultimamente também estou sem inspiração pra escrever. Fui começar a falar sobre meu ótimo ano de 2009 e... lendo depois, pareceu um texto burguesinho de merda, pavoneando-se (com estilo, com estilo, ui) das conquistas que não dependeram só de mim. Vou retalhar tudo, desconstruir toda aquela merda. Chega de mimimi!
__
— kkkkkkk! mimimi é ótimo!
__

***

__
__Breves agradecimentos de um de-novo-estudante a alguém que ele julga que talvez não exista.
__
__Olá, Sr.
__
__Crise? Crise deles. Saio triunfante desta tua era, que a tantos cicatrizou, mas que a mim acolheu, e empurrou, e apazigou, e torceu.
__
__E já era tempo! Meu cérebro estava cada vez mais balofo, atrofiado e preguiçoso. Adeus, rotina cubicular. Adeus, estilo grátis. Acefalia clientelar. Adeus, adeus a todos. Antes que eu dependa de vosso salário, adeus. Crédito de obséquio, politica indicativa, clique aqui, adeus.
__
__“Não sente falta?” — Não. Eu, ávido por conhecimento, ter todo o tempo, por um limite de meses, pra saber mais e mais e mais? Não faltava nada! Hoje, graças à maturidade que eu não tinha aos 17, pude absorver com muito mais crítica e capacidade.
__
__Resultado: 2ª fase nas duas maiores universidades do país em artes cênicas. E vem mais. Nunca, nunca me senti tão apto, e preparado, e decidido para seguir em frente uma escolha que só eu e ninguém mais é capaz de entender com profundidade e abrangência.
__
__E na escola de teatro teve mais. Quem diria que todo o conhecimento adquirido nos quatro anos de faculdade marqueteira pudesse contribuir decisivamente no sucesso de um trabalho cuja matéria por mim foi considerada crítica para definir meu futuro na área pela qual hoje opto? (Respira). Uma promissora possibilidade paralela acaba de brotar. E nem notas, nem fogos de artícício: não há reconhecimento melhor que o da sua própria consciência.
__
__Pensar demais? Que seja. Eu penso mesmo. Mas se o assunto é trabalho, eu penso é com os braços. Se o assunto for amor,
quero sentir,
deixar o moleque falar alto
Aceita?
Não?
Tem quem.
__
__Vontade de gritar: Porra! Caralho! Só não grito (agora) porque as mulheres aqui de casa não gostariam...
__
__Aqui por cá, a saída da agência e a nova decisão coincidiram num período de harmonia no lar nunca vista. Há seis meses que não nos ofendemos. Recorde 12x maior que o até então! Vai ver foi por respeito. Melhor um irmão pobre e confiante do que um rico e babaca. Ou não? Não sei. E nem preciso saber. Por mais piegas que isto soe, o sentido de família deixou de ser demagogia.
__
__(Porra! Caralho!)
__
__Descobrir tal missão também elevou a autoestima a picos virgens. Minha descobridora que o diga! Talvez se, entre comprar um carro, sair de casa e fazer uma meia para estudos, tivesse optado destinar minhas economias a alguma alternativa que não a última, eu ainda seria (escolha um radical)_mente dependente de um molho de chaves. Por mais que isso no fundo importe, quer seja por status projetado, quer por conforto. É...
__
__Sinal de afirmação divina? Destino? Oras, o Sr. percebe que dentro dessa cabeça “que pensa demais” há uma supertição infundamentada, mas crente? Conheci, logo após minha grande guinada, uma turma de teatro reunida aleatoriamente que foi de grande influência espiritual para eu rumar decidido a livros e apostilas colegiais. Tudo confluía até nos mínimos detalhes.
__
__Já da turma na qual estive por dois anos... tchau. Tive que ir mais cedo. Sentiram uma certa frieza, eu sei. Paciência. São decisões. Quando percebo que um ciclo está no fim, prefiro não fingir que é a mesma coisa. Era hora de partir, antes que azede. Sei que me julgaram de ene maneiras, que me fizeram de pauta, mas entre eu e eles deixo que o Sr. resolva as aparas e futuros cruzamentos.
__
__Também não posso terminar essa prosa sem falar de última descoberta de 2009. A mais óbvia: a simplicidade do toque. Só que, dessa vez, um toque ainda mais senhor de mim. O poder de uma mão feminina, quando há dança entre as peles, supera em poder até os remorsos mais profundos. Me fodi? Sim, me fodi. A escolha pela química não faz vestibular com outras matérias. Mas é bom. E ainda saí forte: ainda que digam “Nunca tiveste tantos nãos”, responderei que “Só porque me dei mais sims.”
__
__O Sr. presenteaste-me com diversas boas mudanças. Que não fiquem só nas frases de efeito, hein? Se teu sucessor der continuidade, já está ótimo. Hoje tenho a categoria dos 25 anos, mas, graças a tantos boas manchetes, a energia para encarar essa nova era é de, novamente, 17.
__
__Adeus! Valeu! Valerá!
__
__E merda!
__
__
PS: O autor da carta tem consciência do teor medioclassista de suas palavras. Nenhuma das conquistas estão livres de serem julgadas a partir do berço que, se “graças a deus” não é elitista, teve certos privilégios sobretudo à meticulosa carreira de sua mãe e ao exigente suor de seu pai, e não somente aos próprios neurônios, que sempre foram valorizados e estimulados no seio familiar. Uma análise euclidiana dos fatos históricos familiares, sociais, profissionais e amorosos, que ao sucesso o têm levado, apontariam que, se não fosse a infância mais humilde dos pais, não haveria a valorização dos recursos oferecidos aos filhos, fator que o influenciou nas decisões a respeito de suas finanças; e se não fosse a exigência declarada de que o filho tirasse as melhores notas, psicologicamente este não estaria preparado para encarar um caminho autodidata perante o vestibular mesmo 8 anos após a conclusão do colegial; e quem saberá se, se o estudante não tivesse tropeçado num livro de humanismo em plena biblioteca de marketing (um paradoxo), ele não teria traçado a rota que o desviou de uma carreira tão promissora, que tem como gloriosa Cruzada  alcançar o Himalaia do ego frasal. Sem culpa católica, nem presunção calvinista, ou seja, consciente duende vim e nuonde quero chegar, não farei com que tantos esforços evaporem nos assépticos terrenos culturais dos já afortunados. Mas este é assunto para outra vida. Que começa em três, dois, um, feliz ano ovo!
__
__

9 de junho de 2009

Futuro do pretérito do subjuntivo

Eu, lendo
Três sites, um fotolog, videolog, cinco clipes no Youtube, três perfis de MySpace, um Facebook, Visitem, um Orkut pessoal, um Orkut profissional, MSN pessoal, MSN profissional, Adicionem, site de seu grupo, Flíquer, Blog de poemas, Blog de bobagens, Leiam, 3 frases em portas de banheiro do Centro Cultural, um muro pixado nos Jardins, uma foto no mural de 98 na escola, Comentem, e agora entro Eu, adiantando:
Sou ocupada.

Eu
Mas cadê seu perfume?...

Eu, adiantando
Tá aqui.

Eu
...O perfume que tornou seu.

Eu, adiantando
Tá aqui comigo.

Eu
E cadê você?

Eu, adiantando
Aqui.

Eu te vi. Todas as outras do elenco dançavam curvadas e mancas, sabidas: a rainha estava ao centro, posuda, liderava a dança, exuberando as pernas, sorrindo como rainha, piscando como rainha, flexível, maleável, um corpo de argila pro meu corpo de escultor, o espetáculo capengava mas ela dominava, controlava o ritmo e controlava o público, ela, a abelha rainha, ela com suas súditas, soldadas invejosas, ela contra todas, ela para todos, ela, a musa da noite branca, ela para todos e para mais ninguém além de meus olhos gulosos.

Você é doce...

Nevascou? Nevou ou eu que te beijava? Ventou ou tu que me aquecias? Choveu ou a gente incendiava? Tempo e trânsito agora: garoa na cidade que flui bem. Garoa? Então tudo relativizou. É que são vinte e poucos anos e vários balões murchados na rasa atmosfera de meus anseios sufocados, quem sabia eu que ia ter de novo a sensação da conquista hiper, do beijo tímido, do tudo que se quer com medo de perder, da vida em mãos, de um brilho molhado nos olhos, nos lábios, o primeiro passo de uma noite no roçar de dedos? Eu te queria há meses e você em seu ex ancorada. Quando bate uma paixão dessas, que se espera, que se ouve nas cochias soluçadas, e de repente se tem em mãos, na boca, nos braços, por mais tolo e pueril que eu seja derretido num sonho – contraposto ao macho alfa, eu sei, mas que posso fazer? – tudo em minha volta congela e eu queimo, eu declaro guerra ao sentido horário, eu declaro resistência ao amor de pacotinho, eu declaro luta frente ao domínio das raízes de areia do dinheiro, eu declaro, eu declaro, eu de-cl-AMO!

Você é tão doce...

Pêgo de surpresa. Nós na cama dada, num
pulado tempo, num trocado momento. Eu, você, nós nus, entrega, paixão, paixão, pra te beijar o corpo todo eu curvei até onde eu jamais havia latejado, e você rainha, mãos de musa que não toca, eu não ligava, teu sorriso tudo me dizia. Quantas palavras não circularam nos íntimos odores daquele quarto enquanto as paredes nada ouviam senão o silêncio da cumplicidade. Sim, eu concordo contigo, dá a sensação que a gente se conhece há tempos, sim, eu concordo contigo, foi tudo tão rápido, nem era pra gente estar aqui, sozinhos, em quarto alheio, em cama alheia, em teto de outros amores, eu concordo contigo, veja o sol se espreguiçando pela veneziana, são que horas?, já são seis?, estamos há seis horas encaixando nossos vazios?, quantas vezes respiramos?, eu não sei, estava sem fôlego, risos, risos, silêncio, beijo, beijo, língua, língua, dedos, mãos, pés, pernas, umbigos, mamilos, seio, bundas, que coxas grossas, que corpo quente, que cobertor, o abraço da jibóia, qual é, te apertava até fazer suco, risos, risos, beijo, beijo, dormimos de lábios tocados, de cima dela de cima meu de baixo dela de baixo meu, suave, papilas, gôsto, noite inesquecível.

Você é muito doce.

Eu sei que vou te
— Corta.
Tchau? Ei!
— Corta.
Espe
— Corta. Cena três, claquete cinco. Gravando.

Ele está na cama, deitado, olhando o teto enquanto tem na mão esquerda um livro de poemas de Castro Alves e na direita seu próprio pau melado. Ela chega, cara cansada. Ele pergunta.

— Chegou?
— .
— Veio pela porta?
— .
— Pisando o chão?
— .
— A chave estava com você?
— .
— Está cansada.
— Sim.
— Você tá muda.
— .
— Estava pensando na vida: não serei escravo desse mercado. Pensei na condição dos navios negreiros e então lembrei de você e seu trabalho. Não te associa nada?
— Nem.
— Eu já não sei o que falo com você.
— Desculpe, tô cansada. [Entra vinheta:] Á-Áu.

Faço mal em ser artista e gostar de você. Porque, por ser um deles (eu acho), tenho que lutar contra o estereótipo do artista que só pensa no seu umbigo e suas loucuras, que é amparado mas não ampara, e de certa forma você contribui pra esse est
Não liguei porque tive diarréia.
ótipo. Não, não digo lutar, porque parece que a rotulagem é a ditadura da segurança, mas veja, não dá pra ser conivente com tudo isso. Aí, quando vejo, no MSN abre a janelinha dábliu dábliu dábliu ponto bla bla bla ponto com ponto BR acabou de entrar. Você que põe todos os
Tô nem aí não, sou mais eu.
de Orkut, e pra quê dois perfis de Orkut? Quantos dos mil neguinhos que te adicionam porque curtem sua bunda vão fazer diferença pra você? Tem gente que tá nos dois perfis, catzo! Quando você pede pra lerem seus versos no mural de sua caixa postal, procura uma audiência gratuita? Porque dá a imp
Quem quiser posta, uai.
que é gente querendo divulgação a qualquer custo. Seu perfil é uma tentativa de resumir o que você é ao que você acha de bom em ser, e em todo lugar que te vejo há um banner pedindo leitura, clique. Você é uma
Artista precisa divulgar o trabalho.
e e ainda vem com papinho de que só adiciona quem conhece? Por favor, ó musa da internet, me adicione em seu perfil e serás agraciada com toda a sorte de Gostei, Da hora e Você é linda possível. Que frivolidade! Que punhetação! Você tá me ouvindo?
The message couldn't be sent because contact seems to be offline. Cena três, claquete seis.

Ele está na cama, deitado, olhando o teto enquanto tem na mão esquerda um livro de poemas de Guimarães Rosa e na direita seu próprio pau melado. Ela chega, cara cansada. Ele pergunta.

— Chegou?
— .
— Veio pela porta?
— .
— Pisando o chão?
— .
— A chave estava com você?
— .
— Está cansada.
— Sim.
— Você tá muda.
— .
— Eu já sei como a gente pode melhorar nossa comunicação. Estava lendo os trocadilhos e neologismos de um escritor aí e pensei em criar novos apelidinhos pra você. O que acha?
— Nem.
— Eu já não sei o que falo com você.
— Desculpe, tô cansada. [Entra vinheta:] Ton-tan-tân.

Tanta raiva dele. Eu o odeio, que ódio! Isso é amor reprimido. Se liga! Cuidado, você tá suprindo uma carência dela. Que cara é essa?! Nada. Se liga, eu que dei um basta! Logo vi. Aquele ingrato! Logo vi que
Sorriso de perolegria demoras
Teus fios que plumavam por cima das horas
De ter sob o couro uma grata ironia
A espuma da paz, que sorria, sorria

Ó musa desta noite, chicoteia sob a lua
Os uivos desolados de um lobo tão marcado
Agora vem o verso, vem rimando com tu nua
Moleque clicheteiro, tão lacrado, tão mercado, onde vai a arte?

Talvez seja mesmo o ano da morte
Trombetas da guerra
Travada em mim
Do meu fim

— Pegou, pegou? Eu, guerra, fim? Ok, vamos de novo.

Talvez seja mesmo o ano da morte
Trombetas da guerra
Travada em mim
Do-meu-fim

— Ainda não? Mas você é tão mórbida, como não? Eu... arte... Ahn, ahn? Não? Guerra... Ares... Marte... Mesmo assim, não? Fim... Morte... Não ainda!? Pôrra! Arte, Marte, Morte! Estava tão na cara! Brande sua trombeta
E eu apenas observo de cima, claro
A humanidade não me toca
Um advogado documentando a perda
Da minha própria causa:
O réu deu o créu, meretríssimo.

Meuretríssimo
A ré deu pra trás.

Advogado do diabo
Protesto!

Meuretríssimo
Negado!

CIiente
Eu paguei as contas do telefone à toa, meretríssimo.

Meuretríssimo
Ré, isto é verdade?

Ré
Sim, seuretríssimo.

Meuretríssimo
E você retornava?

Ré
Nunca, seuretríssimo.

TODOS fazem silêncio.

Meuretríssimo
Desordem, desordem no tribanal!
— Corta.
Desordem!
— Corta!
Des
— Corta. Cena três, claquete sete. Gravando.

Ele está na cama, deitado, olhando o teto enquanto tem na mão esquerda um livro de poemas de Augusto Cury dos Anjos e na direita seu próprio pau melado. Ela chega, cara cansada. Ele pergunta.

— Chegou.
— ?
— Veio pela porta.
— ?
— Pisando o chão.
— ?
— A chave estava com você.
— ?
— Cansada.
— .
— Muda.
— .
— Estava pensando a morte, treinando a emoção para ser feliz. Que fazer diante do morcego que nos observa no escuro? Que fazer diante de seu sibilar augustiante? Líder de si mesmo, e eu aqui enjaulado, querendo voar conti
— Hein?
— É que eu já não sei o que falo com você.
— Desculpe, tô cansada. WoRn A mIlLiOn EaSy NoW, cinco seis sete sevo
cê põe aquele seu perfil
Lindo e alguém olha pra você
Eu digo que já não gosto dele
Que tudo isso é pose e está ficando démodé...
Só de cho
—tu, tu, tu
— Alôu?
Tu, tu, tu.
— Alôu?
Tu, tu, tu.
— Á.
Tu, tu, tu.
— Oi?
Tu, tu, tu.
— Olá-á.
Tu, tu, tu.
— Tem alguém aí?
Tu, tu, tu.
— Você está aí?
Tu, tu, tu.
— Me fala alguma coisa.
Tu, tu, tu.
— Eu gosto de você, sabia?
Tu, tu, tu.
— Me retorna.
Tu, tu, tu.
— Eu gozei, sabia?
Tu, tu, tu.
— Não era pra estar falando isso, mas eu gozei.
Tu, tu, tu.
— Mas foi fora.
Tu, tu, tu.
— Eu parei,
Tu, tu, tu.
— tirei,
Tu, tu.
— bati o finzinho,
Tu.
— gozei,
Tu, tu, tu.
— E entutão eu tuvi votucê todatu abertuta, destufalecituda, pentusei estartu sonhantudo mas etura retual, e entutão percetubi que atu razãotu de existutir era nós, tu, nós, tu, nós, tu, entendeu, tu, entendeu, tu, tá ouvindo, tu, sacou, tu, bonzinho, tu, bonzinho, tu, ser tu tumano maratuvilhoso, tu, gentutil, gentuamatuvel, e então eu saquei, eu, sim, eu, que eu tinha que eu ter pensado eu em mais eu que eu que eu que tu!

[Som de telefone mudo]

É uma doença filha da puta. Coisa de sociedade moderna. Essa porra de neoliberalismo que faz a gente querer tudo em cápsulas de alta absorção. Faz desacreditar na continuidade. Quer benefício de pós-pago no primeiro mês de pré-pago. E o trabalho? E a crença? E a união pelos direitos? É claro que cada um por si vai ficar tudo cego. Em vez de ajuda, comprimidos. Em vez de diálogo, monólogos em perfis de páginas da internet. Não é que falta espelho nessa porra, é que não se fabricam mais luzes de teto. Bastam os faróis dos seios ou o joinha carimbado na carteira de trabalho. Se eu fosse dizer pro meu filho seguir uma carreira que tivesse certeza de sucesso, eu diria pra ele fazer Química ou Farmácia. Do jeito que os homens estão se sujeitando às receitas, o futuro só pode ser o das cápsulas! Por falar nisso, preciso dormir. Me passa a água. Preciso dormir, que acabei de me despedir de uma moça no metrô.
Perto da catraca acena a bela moça
O rosto sob os cabelos negros
Nenhuma alegria faiscou em seus olhos
Ouvi o eco de um profundo precipício
O bondoso e gentil escárnio de seu sorriso
Soterrando meus anseios sobre a própria casa
Da inscrição nietzscheana
Aos que entrarem, uma honra
E não haviam paredes, nem chão
Uma casa muito engraçada
Era uma tela no monitor de meu trabalho
Chegou trabalho! Ou melhor: Corta! Cena três, claquete oito.

Ele está na cama, deitado, olhando o teto enquanto tem na mão esquerda um livro de poemas de Mário Bortolotto e na direita seu próprio pau melado. Ela chega, cara cansada. Ele:

— Pop up!
— Fechar.
— Me dá um bei
— Fechar.
— Que tal essa
— Fechar.
— Você vai ho
— Ahhhhh, te odeio, te odeio, te odeio!

Relâmpago.

Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove. Dez segundos.

Trovão.


Um desfibrilador.


Pupilas dilatadas.

Procurei a marca deixada no lençol, mas nele estavam apenas os restos petrificados de meu sêmen escapulido. Nenhuma curva, dobra, nenhuma profundeza no meu colchão. A chave estava no apartamento, a porta fechada por dentro. A janela, meu deus, a janela! Nada. Fechada como um túmulo. Sobre ele, livros, filmes, poemas guardados. Nem traças sobrevoam. Quis me despedir, mas tive sequer uma fagulha de clara lucidez pra poder saber se foi naquela cama que nos deitamos, ou se tristemente as nuvens foram cenário de um universo mítico endeusado pelos mais tolos e românticos prazeres de meus triplos, quádruplos sorrisos. Vai com
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